novembro 22, 2016

gabriel o pensador




por: moisés ribeiro
[12] abr/mai 2015


Nossa redação bateu um papo com Gabriel O Pensador. Cheio de histórias, o rapper mais conhecido do Brasil falou de música, de seus projetos sociais, da carreira e revelou como se inspira para conscientizar a população brasileira.  

O que você quer dizer com "meu rap é para um público misturado"? 
Eu sempre afirmei isso em formas diferentes. O meu som é feito pra qualquer tipo de público, talvez seja mais claro dizer assim. Não sou um cara que escuta só um tipo de música, tenho influência de reggae, mpb, rock, desde Luiz Gonzaga até samba, pagode, coisas da irreverência, da brincadeira, do humor da música brasileira e do rap que chegou com uma linguagem forte em que eu aprendi a ser claro, contundente com as palavras quando era pra ser. Então eu utilizei de várias influências para construir um som que fosse a minha cara. Eu gosto de ver pessoas de várias tribos, idades, classes sociais, por isso não dirijo o meu som para um público específico. 

Você se afastou profissionalmente da música por sete anos em prol de suas obras. Como foi retornar pros estúdios depois desse período? 
Eu priorizei por um momento o futebol por envolver a vida de muitos jovens jogadores e era uma novidade pra mim, mas eu não me afastei da música, continuei fazendo shows e por etapas “homeopáticas” gravei um disco. Realmente teve uma demora em relação a gravação do disco. Mas eu voltei com sede do novo, de divulgação de turnê nova. Novos músicos na banda me deram uma empolgação a mais, cada um com seu estilo, energia. Então eu tive um sabor de retorno, de volta. Disso eu já estava com saudades. Estou amarradão com tudo que vem rolando, já passamos por Portugal, Cabo Verde, Irlanda, Uruguai, China... e agora a minha prioridade é a música e o futebol, paralelamente, continua rolando. Estou sempre atento pra unir as duas coisas, faço um show e às vezes naquele local realizo visitas em algum clube. Sou realmente muito grato por trabalhar com o que eu gosto de fazer.

Sabemos que você cuida de dois projetos sociais: "Pensador Futebol" e "Dream Football". Qual o objetivo em idealizar essa mistura de futebol e educação?
Foi um prazer participar do projeto Dream Football durante dois anos. O Luís Figo me chamou pra ser o embaixador no Brasil. Recebi o convite justamente por eu ter ligação com a educação. Ele assistiu lá em Portugal que além da música eu trabalhava com a criançada num outro ambiente das feiras do livro, nas escolas e que eu também tinha um outro trabalho com o futebol. Esse fora da Dream Football continua... o “Pensador Futebol” é um projeto que hoje está concentrado no Rio Grande do Sul em um clube chamado Novo Horizonte e que vem transformando a vida da garotada da cidade de Esteio e dos arredores.

Em uma entrevista você afirmou que "o rap estimula o cara a ter opinião própria". Por quê?
O rap mudou bastante, principalmente nos Estados Unidos, virou uma coisa mais vazia, com muita ostentação, muita marra, mas aqui eu acho que os rappers ainda mantêm a essência de falar com o coração, de tentar transformar a mentalidade do ouvinte, de usar essa linguagem para fazer as pessoas refletirem, fazerem as pessoas reagirem. Isso é o que eu quis dizer, que o rap torna a gente mais livre, abre a cabeça. Mas não só o rap, o Bob Marley, por exemplo, foi um artista que abriu a cabeça pra muitas coisas. Artistas do rock brasileiro na época pós-ditadura, anos 80, eu com meus 10, 12 anos, começando a interessar por letras de músicas. Enfim, a música tem esse poder e o rap, apesar das distorções que ocorreram desde a origem até hoje, contempla um pouco mais dessa capacidade.

A música intitulada CHEGA seria um apelo a atual situação do nosso país?
A música Chega é mais um desabafo, entre outras que já fiz e falam dos descasos, desrespeito e humilhação que a gente sofre vendo cada vez mais as coisas erradas sendo feitas na nossa cara. O dinheiro sendo desviado, as pessoas morrendo nos hospitais e a falta de condição que a gente tem de vida em todas as classes sociais. Você não tem segurança, não tem retorno dos impostos que paga. Essa música deixa bem claro essa questão que tudo isso é feito com o nosso dinheiro, seja o cidadão rico ou pobre. Música simples, mas que vale pra todos os governos, sejam os atuais ou os passados. Deixo bem claro que não há vínculo com nenhum partido e a nenhuma esfera política. Vale ressaltar também que teve pedido de pessoas pela internet, querendo música nova de protesto. O pessoal está realmente cansado de ver tanta notícia ruim. Seja de corrupção, seja do Ricardo dos Santos ou do menino no Alemão, pessoas sendo mortas... e aquelas velhas notícias de sempre. Então, existe sim essa cobrança do público. Recebi muitos recados pela página do Facebook: Gabriel O Pensador Oficial, pra quem também quiser interagir, sou eu mesmo quem olho, respondo. Mas enfim, a galera está meio perdida em suas convicções, eu vejo isso, estão se agredindo. Acho uma babaquice, porque os políticos desonestos se unem quando querem ferrar a gente, não se importam com ideologia. Vejo pessoas que poderiam se unir para cobrar seus direitos e ficam se ofendendo por diferenças sociais e visões políticas. Minha música tem a intenção de representar várias pessoas que estão cansadas. Falo na  letra “corda no pescoço do patrão e do empregado” e por aí vai...

Como esta canção, você sempre procurou manifestar os descontentamentos do povo brasileiro em suas letras. De onde partiu, “vamos se dizer assim”, esse intuito musical?
Eu comecei a fazer música justamente por isso. Sempre tive necessidade de questionar muita coisa, de protestar, de falar do racismo, da injustiça, do comportamento da minha própria geração na época. Desde o primeiro disco já fica bem claro o que me levou a entrar na música. Sempre fui aberto a temas mais alegres, gosto de falar de amizades, festas, surfe. No entanto o que me motiva muito é falar destes temas que fazem as pessoas pensarem. Eu também já fui muito influenciado através das músicas que eu ouvia, o que eu assistia na TV, o Chico Anísio mesmo já me influenciou muito pelo seu bom humor. Na verdade tudo pode ser influência, mas principalmente o dia a dia, as coisas que acontecem na vida real. Eu vivi em São Conrado, onde moro hoje, dos 12 aos 15 anos conhecendo a rocinha, andando de skate, surfando com a galera. Vi muita coisa boa, muita coisa ruim. Não só neste momento, mas durante a minha vida eu sempre fui muito atento, observador e muito sensível. Isso acabou sendo transformado em música. Tudo que eu vivi, experimentei...